quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Love. lost. love

Hoje comecei a morrer e não sei por onde. Não me pergunte qual pedaço parou primeiro. Só sei que da glote até meu sexo, nada mais existe. Há um iato. Um vazio. Um canion. Há uma fenda poderosa e profunda que nada fala, nada sente. Apenas sabe que acabou. Que nada mais adianta. Tudo se foi. Estranha e leve a sensação de quem sabe do futuro, de um amanhã que não existe.



Sinto vibrar em mim o riso debochado dos que não ligam para o depois, pois sabem que além da lenda nada mais há. Ha, ha, ha, como escrevem os adolescentes em vidas virtuais. Ahusahauahsuahahas… Letras que sem sentido viram gargalhadas nos ouvidos de quem vê. De quem lê.



Ai, quão antiga sou, que preciso dos sentidos, do sentir. Você nada é além daquilo que eu gostaria que fosse. Brisa. Fosso. Depende do ângulo de quem vê, você não está. Mas vive em mim. Forever. É para sempre enquanto o sempre houver. Até um dia. Até talvez. Até quem sabe.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Aquelas lições de vida...

Me encaminharam esse texto por email. Eu já tinha lido uma vez, mas sempre gosto de dar uma olhada na lista. #ficaadica

"Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais solicitada que eu já escrevi. Meu hodômetro passou dos 90 em agosto, portanto aqui vai a coluna mais uma vez." Escrito por Regina Brett, 90 anos de idade, que assina uma coluna no The Plain Dealer, Cleveland, Ohio (segundo a fonte que me mandou o texto)...


1. A vida não é justa, mas ainda é boa.

2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno .

3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.

4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.

5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.

6. Você não tem que ganhar todas as vezes Concorde em discordar.

7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.

8. É bom ficar bravo com Deus, pois Ele pode suportar isso.

9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.

10 Quanto a chocolate, é inútil resistir.

11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.

12. É bom deixar suas crianças verem que você chora.

13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.

14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.

15. Tudo pode mudar num piscar de olhos Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.

16. Respire fundo. Isso acalma a mente.

17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.

18. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.

19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.

20 Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.

21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.

2. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.

23. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.

24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.

25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você.

26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras 'Em cinco anos, isto importará?'

27. Sempre escolha a vida.

28. Perdoe tudo de todo mundo.

29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.

30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo..

31 Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.

32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.

33. Acredite em milagres.

34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.

35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.

36. Envelhecer ganha da alternativa morrer jovem.

37. Suas crianças têm apenas uma infância.

38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.

39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.

40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.

41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.

42. O melhor ainda está por vir.

43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.

44. Produza!

45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.

terça-feira, 22 de junho de 2010

87

Era uma máquina de sumimento. Ela era. Foi desligando a própria vida aos poucos. Primeiro foram os compromissos, datas, nomes. Perdeu as contas de quantas vezes desejou esquecer pessoas, gestos, amores mal resolvidos, comidas mal digeridas, gostos, sabores, palavras e xingamentos. Agora, tudo se desfazia.

Não sabia mais a cor das cores. Nome completo, cep, cpf, nem endereço. Rostos dos quais tinha uma vaga ideia foram aqueles que povoaram sua memória por décadas. Agora, se desintegravam. Era o nariz de um, nos olhos do outro. O cabelo da mais velha, na cabeça da mais nova. Mãos, tato, digitais, nada tinha os mesmos nomes.

Esqueceu de onde veio, mas queria voltar para a fazenda. Não sabia aonde ir, mas não queria ficar. De tudo, só restou o amor pelos gatos e seus guizos. O tlintlin deles a trazia de volta, quando os pensamentos se perdiam. Ela era um labirinto sem retorno. Confusão. Se era dia, se era noite, tanto fazia. Barulhos não mais reconhecia. Nem vozes. Até que se calou. Não havia mais o que dizer.

Não reconhecia mais seu timbre. Sol, si, dó, das notas nenhum registro. Aquele som não fazia sentido. O samba, que lhe fora tão caro, soava tambores distantes e surdos e recorrecos e tamborins sem harmonia. O pandeiro que ele tocava estava mudo há anos. O espelho onde ela se via não se reconhecia. A sala, a mobília, os abajures que ele inventava quando moço eram um museu sem novidades.

Ria de si mesma quando perdia, pela décima vez no dia, a chave da gaveta. Pra que, meu Deus, uma gaveta? Não havia mais o que guardar. Ela esvaziava. E se nutria do óbvio, do essencial. Galinha, ovo, quem veio primeiro, tanto fazia. Nada mais tinha gosto, porque do paladar não se lembrava mais.

E nós? Por onde ficamos nós no seu redemoinho de passados distantes? Nunca lá estivemos. E nós, nomes gravados no cordão que agora leva no pescoço pro caso de se perder, nada mais somos. A ausência, o vazio. E assim a vida se esvai sem ir. Ela não se foi, mas não está mais ali. Nem aqui. Nem acolá. Não cabe mais no mundo, porque desconfia dos mundos que há no mundo. Ingrato, sujo, desvarido, azul, belo, deste, do outro, dos santos, dos bêbados, dos insanos, dos pecadores.

Quantas vezes quis bater em retirada, ameaçava, mas a porta nunca passou. Agora, o retorno é para sempre, presa nela mesma, sem saber quem é nem o que faz ali. Onde foi mesmo que deixei meus óculos? cansava de perguntar, com os óculos presos no pescoço, as lentes para o chão, suspensas no cordãozinho jaz imundo.

Onde estamos todos, seguros no resto de afeto que ela lembra de ter tido, de ter dado, vendido, negociado, fazemos qualqur negócio em troca de um pouco de atenção. Não ensinou a dignidade, que tinha de sobra, mas se recusou a passar adiante. Perferiu fincar a insegurança, sob a qual ela se erguia ainda mais poderosa. Ela era a mulher da casa. Ninguem mais o seria.

Da vaidade, veja só, não se esquece. Se banha e se perfuma, se penteia e se veste, pronta para a festa diária da vida. Rainha de suas vontades, não sabe mais o que quer, nunca soube, mas se sabe fêmea, fêmea antiga, gasta, usada, rodada, quilometrada, mas de cabelo tingido, unha vermelha e batom carmim.

Pouco resta da boca, nada tem a dizer, não lembra da última frase, não pode engatilhar a próxima. Mas sabe, sabe-se lá como, que haverá amanhã. Só não tem certeza do ontem. Olha pra trás e está na boca do abismo. Nada ficou. Os pés sentem a terra deslizar, vai-se toda ser engolida por aquele breu, a escuridão do não saber e do esquecimento. Mas vai sem sofrer. Não vai se lembrar de nada mesmo.

Antes fosse asssim com os porres, com as mancadas, com as broncas que tomamos e que damos, com os vexames, os vômitos, as choradeiras. E com as surras, as ausências, as infelicidades, as indelicadezas. Com as palavras de fel, com as malas que perdemos, com os ódios, com as vinganças. Com as maldades que desejamos, com as crueldades que cometemos. Mas não. Quando a vida se esvai e se apaga somem também o gosto da framboesa, do morango e do mirtilo.

Desaparecem Bach, Tchaikovsky e Tom Jobim. Não há mais Elizete, Lupicínio nem Martinho da Vila, que ele gostava mais do que ela, mas ela dançava junto, rodopiando nos salões, parando as festas, arrancando aplausos.

Vão-se os beijos ternos, os beliscões safados, os olhares de tesão, as passadas de mão e toda sorte de bolinações que fazem nascer o sexo, as crianças e os amores.

É o adeus. É morrer e esquecer de deitar. E esquecer, esquecer, esquecer, até sumir em si.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Carro de som

São Paulo é uma cidade saborosa e gosto de tudo nela, até do trânsito. Verdade. Eu adoro um bom e demorado congestionamento. Parece incrível, mas é ali, encalacrada dentro do carro, que vivo excelentes momentos de solidão. Ficar sozinho é um raro privilégio para quem tem família, criança, trabalho. Aposto que há outras mães, mulheres, atletas, profissionais, donas de casa, como eu, que também gostam de ficar a sós com seus ‘eus’ enquanto esperam a 23 de Maio andar, a Brasil se mover, a Rebouças alargar ou a Radial dar um passinho para a frente. A verdade é que nunca estou apenas eu comigo. Sempre tem alguém em volta. Mas no carro não. Não há um só vulto, uma miragem. A paisagem é deliciosamente sem nada. Fico só com meus pensamentos, minhas vontades, e daí choro quando quero, sorrio raramente e canto. Não sei vocês, mas adoro cantar no carro. E a escolha da trilha sonora se divide com o dial. Alguém um dia me garantiu que quem trabalha com informação precisa sempre ter uma rádio popular sintonizada, que é pra saber o que as pessoas estão ouvindo na ‘vida real’. Fiz isso por um tempo, e conseguia até distinguir quem é o Zezé, quem é o Luciano, o Chitaozinho e o Xororó. Agora não sei mais. Hoje reservo as memórias para as rádios de notícias, as que só tocam música brasileira e a 'nossa' Eldorado (não sei viver sem Alessandra Lopes e o Trilhas e Tons, nem sem o Vozes do Brasil da Patrícia Palumbo e muito menos sem a sala dos professores do Daniel Daiben). O trânsito também me dá mais tempo de ficar com os meus filhos. É que se não estou sozinha, eles estão comigo. Sou, como muitas paulistanas, mãetorista matinal. Leva uma para o balé, o outro para a natação, para o inglês, para a terapia (sim, hoje eles começam cedo a cuidar dos estragos que fazemos neles - e nem adianta chiar, pois a culpa, Freud explica, é sempre da mãe). E é nesse vaivém, nessa convivência cronometrada, que aparece a chance de colaborar com a formação musical das crianças. Às vezes ouvimos CDs, escolhidos (entre tapas e beijos) por um ou por outro. Na maior parte das vezes, o rádio é que fica ligado, apresentando a eles um ecletismo necessário para um ouvido em formação. Foi assim comigo, que de Martinho da Vila a Mozart, ouvia de tudo, e ouço até hoje. Até porcaria eu ouço, pouco importa. Porcarias fazem parte da vida e, se for ruim demais, puft, mudo de estação, desligo o som. Acabou. Delicioso poder exterminar tão facilmente o que ruim. É um exercício curioso ver se formar o gosto musical de um ser humano. E é preciso se resignar diante do inesperado. Por mais que você tente, compre a coleção completa do Palavra Cantada (Paulo Tatit e Sandra Peres são uns gênios), resgate os Saltimbancos de Chico Buarque e os discos infantis do grupo Rumo, ataque de Hélio Ziskind, nada vai adiantar. Um dia, sua garotinha vai recitar todos os 'versos' da Glamurosa, do MC Marcinho. Seu moleque vai gritar no banco de trás um Skank básico, "vou deixar... a vida me levar... para onde ela quiser". Eles vão cantar Ana Julia dos Los Hermanos, por mais que você tente impedir. E vão, aff, pedir para você colocar de novo aquela do 'bundalelê", que obviamente você não tem, mas algum amiguinho gravou num CD e deu de lembrancinha no aniversário. Mas nem todo seu esforço será em vão. À noite, quando sua menina te chamar para ouvir Bach com ela antes de dormir, você verá que a grana investida naquela coleção de clássicos valeu. Foi presente do avô, e você passará a admirar ainda mais o seu pai, que teve essa idéia brilhante. Tudo bem que no dia seguinte ela acorde imitando o gritinho estridente de Hannah Montana, ou se desfaça em agudos para cantar com a galera do High School Musical. Você também já deve ter tido seus dias de Grease... e sobreviveu.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Vico e Elvis

Estavamos ouvindo um CD de rock das antigas, e ele perguntou se tinha Elvis. Eu falei que só havia uma música, então fui até a Saraiva e comprei uma dessas coletâneas. Coloquei no carro, na volta da escola. Ele ouviu uma, duas, três músicas. E concluiu:

"Mãe, o ritmo das músicas do Elvis parece sertanejo em inglês, né?"

terça-feira, 14 de julho de 2009

O calçadão (*)

Aquela tosse não era de hoje, nem sei mais quando começou. Nada em mim é recente. Os pigarros. A dor no peito, que não era angústia, mas parecia. Aguda, dilacerante. Vinha cortando as costelas, batia no esôfago para explodir em sons aterradores. Minha neta saía correndo cada vez que eu tinha um ataque daqueles, fugia de mim. Muitos foram os que fugiram de mim. Tive tudo. Empresa, família, dinheiro e ódio. Pude ser sarcástico, pude ser cruel. Humilhar sem remorsos. Rir o riso dos que mandam diante dos que obedecem. Não que eu seja má pessoa. O poder é que dá na boca esse gosto de fel. O diagnóstico de câncer no pulmão era uma revanche da vida contra mim. De todos os que eu botei para correr. E eu agora era obrigado a ver a beleza do mundo com olhos de quem se despede sem ter tido chance de se apresentar. Deve ser um conforto viver assim. Nu. Sem medo. Sem blindagem. Sem amarras. Como aquele cara, lembro bem dele. Exibido em frente ao mar, se erguia nos ferros, suando em bicas e se achando o máximo. Devia ter uns quatro palmos de costas, o sujeito. Bíceps de titã, um abdome espartano e que dentes. A boca inteira pulsava um sorriso típico dos ignorantes, exalava bafo de canela e uma burrice que eu podia ver, pegar no vento. Tive vontade de lhe chutar o rabo. Imundo ele. Mas não. Nada no ordenamento jurídico, na constituição, em porra de lei nenhuma o proíbe de fazer isso. Eu? Por nenhum dinheiro vivo do mundo conseguiria me expor assim, barriga pra fora, pêlos à mostra, pra quem quiser ver. Nem lá, na praia. Nunca fiz isso. O status exige compostura. Sempre tive um nome na praça, uma reputação a zelar. Pergunte aos que conseguem. Aposto a resposta. Sei o que sentem. É paz. Passo reto. É hora da minha água de coco. O médico mandou. Eu preciso fazer bem à minha saúde.


(*) O primeiro texto que fiz na oficina, em 2008. Sorteei algumas palavras e escrevi seguindo a ordem na qual elas caíram sobre o papel. As palavras nos escolhem, é o que dizem. Não duvido.

domingo, 5 de julho de 2009

O conto do amor

O tal tema da oficina "Um lugar desconhecido" revisto e ampliado...


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De rapel, ele desce, lentamente, preso aos fios de afeto que ainda pendem dentro do peito. Põe os pés na segunda costela, de cima pra baixo, e se apoia, instável, grudando e desgrudando braços e costas da carne vermelha viva que o circunda. Ir até onde nenhum outro jamais foi. Cair no coração selvagem e descobrir bem de pertinho o que sobrou de si depois de tanta vida mal escrita, por linhas tortas que nunca deram certo. Sempre soube que aquele vão oco da aorta existia, mas jamais pudera ali pisar. Agora estava ali, um expectador do estrago que suas escolhas erradas causaram. Por que fora naquela noite àquele encontro sombrio, com uma mulher desencarnada e vestida de lascívia. A paixão, a paixão, a paixão.
Pouco sabia do vale dos que morrem de amor platônico, e agora podia ver a cadeira de veludo verde, com seu nome cravado em dourado, um lugar de honra no limbo dos infelizes. Um dia quis comprar alegria, mas não sabia sorrir, e desistiu.A imagem dos azulejos azuis ainda luzia em sua memória. Ela o convidara para entrar, sentar, tomar um cafezinho, como se ele já não soubesse que dali não sairia vivo. Morreu cinco minutos depois de perguntar porque ela o escolhera, entre tantos. Ele era interessante, foi o que lembrava ter ouvido, antes de se aproximar de seu pescoço, o dela, regado a Poison, e se embriagar de tudo o que ela tinha para oferecer. Entrou, sentou, se refastelou nela inteira, ela foi dele para sempre enquanto duraram aquelas duas horas. Estava entorpecido daquela mulher e agora sabia o gosto que tinha um corpo em êxtase. Piscava os olhos fitando o teto, incrédulo, trêmulo. Sabia que ela gargalhava, mais por ver os lábios escancarados, do que por ouvir o som. Seus sentidos não funcionavam. Sentia o peso do edredon verde cheirando a guardado, um cobertor que passou a vida esperando por aquele odor de sexo e medo, e agora se enroscava nele, nela, satisfeito. As imagens turvas daqueles primeiros instantes viravam vultos, agora que sentia os pés escorregando na gosma de gordura e músculos. Olhava para dentro de si e tinha náuseas. Se vomitasse ali, seria engolido pelo ácido de suas pequenas e gigantescas maldades. As crueldades todas que cometera, com todas as mulheres antes dela, pelas quais merecia ser escalpelado, sabia disso, agora se revelavam nas vísceras. O que faria se fosse engolido pelo ódio que sempre nutriu? Conseguiu enxergar um ventrículo abrindo, fechando, abrindo, fechando, ritimado, perdido entre helenas, marias, lourdes, argh, lourdes, laura, mulheres com ele, com L, a letra, não com ele, ele, o cara, embebido em plasma, hemácias, leucócitos, plaquetas. Se afogava em água, oxigênio, glicose, proteínas, hormônios, vitaminas, gás carbônico, sais minerais, aminoácidos, lipídios e uréia. Ele coagulava. Ficaria preso ao átrio direito. Ou seria o esquerdo. O miocárdio não pulsava. Era uma hemorragia. Na metade direita do coração, onde só circula sangue venoso, ele colocou o pé esquerdo. Na esquerda, bloqueou o sangue arterial com o direito. Ficou assim, dependurado, um abismo no septo. O endocárdio necrosado. O pericárdio transparente, sedoso, ia rasgando vagarosamente. A membrana que reveste todo o coração se esgarçava aos poucos, como ele foi rompendo a vida. Não conseguia conter a fenda, se agarraria ali, mas não duraria uma piscadela da primeira vagabunda que aparecesse. Ele não resistiria a outro desprezo. Precisava urgentemente voltar à vida cafajeste que tinha levado até ali. Não encontrava nos vãos de seu ser vestígio algum do que fora um dia, e desaprendeu a viver. Queria poder voltar e contar onde estivera, que dentro do coração é só sangue e gelo, mas não teria ninguém para ouvir. Menos ainda conseguiria subir ao cume da cabeça e encontrar os buracos da vida, ser cuspido pela boca, assoado em alguma gripe, balançado depois de entupir algum ouvido, ou escapar ileso em alguma lágrima de amor derrubada. Não. Ele agora ficaria preso em si. Amuado e sem sonhos, subindo e descendo a cada soluço que insistia em dar. Chorar não sabia, mas a tristeza vinha em trancos. Suores.De onde o desejo nasce, vêm também os medos mais medonhos. Os poemas poemados. A língua. Quem sabe conseguisse ainda lamber algum beiço carnudo, como que sempre gostara, como os dela. Ela. Ela. Ela. Ela seria eterna nele. Conseguia enxergar seus rastros, um pedaço do salto alto da sandália vermelha, coisa de puta, só pode ser, fincado na ponta do estômago. Ela moraria para sempre nos seus infernos. Os restos do vestido preto de fazenda boa, coisa de grife, coisa de puta rica, só pode ser, esparramados em cima dos rins. Não. Puta ela não era que ele não era de comer puta. De onde ela saiu foi onde ele chegou. Agora podia ver, como ninguém mais, o que causara nele.Um homem devastado. Seus pulmões despedaçados. Hollywood. Trinta por dia. Ela sempre gostou de fumar, e ficava bem com cigarro entre os dedos, colocando delicadamente na ponta da boca, fazendo cara de vontade. Sempre entendeu tão bem os recados que ela mandava sem falar. Inventou uma mulher do jeito que queria que ela fosse, e assim ela era. Dentro dele ela era assim. Dobrava o indicador e ele ia. Sem avaliar riscos, sem pensar em ninguém. Nunca antes soubera que a saudade era física. Cada vez que via o rosto dela no fundo da retina, sentia um pedaço da mitral caindo. Desabava. Quanto tempo ainda teria para voltar a respirar. Seria tragado para o ralo da alma e nunca mais a veria. Nunca mais. Nunca mais é mais que a morte, sempre soube. Agora, diante daquele nunca mais um beijo, nunca mais o cheiro dela, o cangote, a coxa lisa, a panturrilha arrebitada, nunca mais ele voltaria a si. Estava entregue. A vida iria passar e ele morreria dentro dela, da vida dele, para nunca mais sair . A náusea, um antiácido resolveria, um tarja preta, nunca nada foi eficaz. A felicidade mora aqui, mas ele nao enxergava a cara dela. Via nervos e músculos em nós. Trigger points emocionais. Ele era um emaranhado de vontades não realizadas. Luz não há. Dentro da gente é um centro da terra escuro e úmido. Vulcão seria se tivesse forças, mas não era mais do que um pedaço disforme de memórias e lembranças. Também não conseguiria jogar fora o que ali ficou gravado. Os grudes dela caíram na circulação, afetando todo o funcionamento do organismo. Debilitado, ainda pensou em pular nas sobras de gordura abdominal e num salto único, sair de si. Cairia estatelado no meio da sala dela, onde entrou sem ter as chaves. “Oi amor, o que você está fazendo aqui todo ensanguentado”, ela perguntaria, sem jamais entender onde estivera. Ela nunca o chamou de amor. Ela nunca mais o chamará de amor. Ela já era nunca mais. Ele, o amor.