domingo, 27 de janeiro de 2013

Agora eu sou .com

Atendendo a pedidos dos meus exigentes amigos, migrei para outro endereço. Agora estou no blogdadb.com. Espero todos lá. bjs

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Periguete, você ainda vai ser uma?


Periguete. Ou Piriguete, segundo MC Papo. O funk detectou rapidinho o estilo de ser, viver e se vestir que uma infinita geração de mulheres que não tem idade, nem juízo. Só vontade de andar por aí com três palmos de roupa. Das novinhas às coroas saradas, botocada e disfarçadamente jovens, poucas resistem à tentação da sainha curta, do top, do saltão. Se o dinheiro na conta é muito, ganham ares refinados, com um cristalzinho aqui, um bordadinho ali, uma franja acolá. E não faltam grifes de luxo dispostas a encher o armário delas com esse periguetismo de butique. Se são periguetes de raiz, vão adotar um shortinho com blusinha, e o diminutivo, no caso, é sempre descritivo.


As ofertas de pouco pano para muito quadril estão por toda parte. Posso viver dez vidas, mas vou continuar sem entender essa necessidade extremada de se expor. Mas sou voto vencido, eu sei. Elas gostam, eles adoram. E periguete que se preze não se contenta só com a ausência de pano nas pernas. Elas escancaram no decote – tem até aqueles recortes no peito, que fazem os seios quase pularem pelo buraco. 

É um caminho sem volta. Basta uma olhadinha na novela ou no BBB para entender que tá tudo dominado. Em Salve Jorge, o estilo periguete veste, indistintamente, o núcleo das traficadas (onde sempre caiu bem), a galera do morro, as finas do asfalto. No BBB, onde não há figurinistas, os trajes exibidos vieram na mala das sisters. 

Ok, certamente é tema para sociólogos, mas o aspecto que me interessa é um só. Para a moda, o efeito periguetes levou os saltos à estratosfera, encheu de vestidinhos colados as vitrines e jogou a elegância num atoleiro. Daqui a pouco todo mundo vai ter de ser periguete por W.O.,  por absoluta falta de opção de algo melhor para vestir. Será mesmo que uma mulher precisa de recursos tão óbvios para se sentir sexy? 

*Logo, logo, vou migrar para uma plataforma mais mudérna, com layout mais bonitinho, certo Edu Diório e Bianca Zaramela? Aviso assim que rolar...

bj 
db

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Uma rápida premiação para a alta-costura


Prometi falar sobre o periguetismo na moda, mas não resisti a fazer um trofeuzinho para a alta-costura, só para desenferrujar. Todo mundo chama de alta-costura qualquer vestidão de festa, mas não é bem assim. Só faz alta-costura quem está na restrita lista dos eleitos pela Câmara Sindical da Alta Costura (Chambre Syndical de la Haute Couture - Paris), e segue uma série de regras, mas isso qualquer boa enciclopédia de moda pode ensinar. Eu não sou nenhum Mario Mendes, meu amigo fino que tem convites para os desfiles. Então o jeito é dar uma espiada nas galerias de fotos e se empanturrar de imagens de moda. Bora dar uma olhada no que ficou cravado na retina. 

Troféu Inveja Mata: Mario Mendes, que sambou e sapateou na cara da sociedade, com seu ryco convitinho para o desfile da Chanel. Assim você mata as blogueyras todas, Mario! 


Taça tapete de saquinho de leite: quem teve uma tia do interior que fazia tapete com restos de tecido ou de saco de leite (muito famosos antes dessa moda de leite de caixinha) vai lembrar. Martin Margiela, o que é isso, companheiro?

Troféu Tocando o Terror: O rosto coberto a gente cansou de ver nas passarelas do Alexandre Herchcovitch. Pode ser uma versão nova para o look terroristas, graças a Deus. Martin Margiela, explica essa também? E, conta aí, rolou uma pintura no ateliê antes do desfile foi isso?



Taça André Lima: para Jean Paul Gaultier. Achei tão André Lima essa coisa mulherões, cabelões, cheia de babados, de referências étnicas...


Taça Ala das Baianas: Gaultier tá de olho no Brasil, tô achando. Ou isso não é coisa de carnavalesco? Prontinha para a passarela... do samba!


Taça Lu Alckimin: A cara da primeira-dama do Estado de São Paulo o look comportadinho da Valentino! Bordados muito chiques, e esse cabelinho que não sai do lugar. Muito dona Lu...


Troféu Kate Middleton: Certeza que Valentino está de olho no armário da duquesa. Essa proposta certolina e caretinha tem um quê de Kate...


Taça Princesa Lea: Ok, ok... Valentino também foi ao espaço. O figurino da Princesa Lea, de Star Wars, ficou sensacional. Só faltou o penteado de rolinhos tipo maria-chiquinha.


Troféu Diário da Princesa: Para quem acha que é fácil fazer roupa INTEIRA bordada e ficar chique de verdade, Elie Saab é uma pós-graduação. A coleção mais refinada da temporada, roupa de princesa sim, mas com uma elegância arrasadora. 


Taça Não Tem Seringa com Dose Letal vai de Armani Privé: Os modelos da marca são pura auto-defesa! Já vem com um chaco costurado... muito prático para cidades violentas.


Taça Compre um Dior ganhe uma boia na cintura: ... e então só porque a pessoa faz a coleção da Chanel acha que pode tudo, até desenhar uma roupa que já vem com um volume extra na barriga... 


Troféu Boca Loka: Sem dúvida, o batom mais bapho da temporada foi o da Dior, com cristais. Vai bombar no Carnaval, certeza! Melhor foi descobrir, com a ajuda do Maurício Augusto Massano, um ex-aluno atento, a inspiração Mulheres Ricas do look! Cozete Gomes na Dior, pah!





Taça Qual é a Música de Make-Up: Quem é vivo há de lembrar as maquiagens "incríveis"dos cantores do quadro mais famoso do Programa Silvio Santos. Sei não... esse olhão da Chanel ia ficar super bem no Pablo.


Taça Toda Forma de Amor Vale a Pena: Para quem acha que a moda é balela e não serve pra nada... Karl Lagerfeld mostrou que basta um casal de noivas, em vez de uma noiva só, encerrar um desfile para desafiar toda aquela multidão que saiu às ruas de Paris contra o casamento gay. Palmas para o Kaiser!


Primeiro degrau...



Não, aqui ninguém verá o look do dia. Sou da escola em que jornalista não é notícia. Nem o que veste, muito menos a bolsa que carrega ou o sapatinho que usa para bater o pezinho no chão cada vez que é contrariado. De meninas mimadas, o mundo virtual está farto. Sim, há blogs... e blogs. Mas gosto mesmo é do conceito original, de um espaço formatado para a exposição de opiniões sem amarras. Ou de informações que possam ser úteis - ou inúteis, desde que divirtam. Sempre estive nas editorias de futilidades, mas sempre argumentei que se meus colegas de Esportes vão ver jogo de futebol e dizem que estão trabalhando, eu também posso ver desfiles... e estar trabalhando. Simples assim. Já ensaiei algumas vezes usar este espaço profissionalmente, mas acabo sendo engolida pelas circunstâncias. Agora, confesso que estou decidida a tocar esse projeto com mais seriedade. São 25 anos de profissão, já vi, ouvi e vivi coisas suficientes neste mundo das modas para poder dar alguns pitacos. E tomar umas pedradas, sem que fiquem nem arranhões. É isso. Aceito sugestões, dicas, dúvidas... vamos em frente. Este é só um post de boas-vindas a quem se despencou até aqui. No próximo, um tema que muito me apetece... o periguetismo na moda. Até já!
bj
db

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A história de Alber Elbaz na Lanvin agora em livro



Assumir a maison mais antiga do mundo e dar a ela um sopro raro de novidade, fôlego e estilo. A trajetória do estilista Alber Elbaz à frente da Lanvin comprova o talento do artista, que estreou na casa de moda francesa em março de 2002, e a reinventou. Uma década depois, a Lanvin voltou a ser uma das marcas de moda mais cobiçadas no mercado disputado do luxo e do glamour. A jornada criativa do estilista pode ser vista nolivro "Alber Elbaz, Lanvin", que comemora esses dez anos de Elbaz na Lanvin. A publicação  já pode ser encontrada no Brasil, na boutique da grife no Shopping JK Iguatemi. O leitor pode acompanhar o processo de nascimento de uma coleção, desde o primeiro esboço nas páginas em branco do sketchbook até o desfile final. As imagens pretendem desvendar não só desvendam o processo contínuo do design, mas também o lado humano de criar uma coleção. "Cada coleção é sempre diferente, mas o processo de criação é sempre o mesmo", afirma Alber. O livro foi feito em parcereia com Pascal Dangin, que editou o projeto. As imagens do fotógrafo But Sou Lai refletem o trabalho de Alber e dispensam as palavras. À venda por R$ 1.500 (yes, mil e quinhentos reais!) é encadernado à mão com tecido branco de gorgurão de seda e traz o carimbo da Lanvin gravado na capa e lombada, além de páginas douradas - mas não é de ouro, apesar do preço, ok? Veja algumas imagens da publicação. 











segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Listras, pinturas e cores fortes em Dolce&Gabbana


Um verão de cores fortes e imagens de impacto. A Dolce&Gabbana mostrou suas propostas para a temporada neste domingo (23/9), em Milão, provando que a estamparia promete dominar as vitrines da marca, ao lado de inúmeras versões de listras. Veja algumas imagens da apresentação. 







terça-feira, 24 de maio de 2011

Aquelas lições de vida...

Me encaminharam esse texto por email. Eu já tinha lido uma vez, mas sempre gosto de dar uma olhada na lista. #ficaadica

"Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais solicitada que eu já escrevi. Meu hodômetro passou dos 90 em agosto, portanto aqui vai a coluna mais uma vez." Escrito por Regina Brett, 90 anos de idade, que assina uma coluna no The Plain Dealer, Cleveland, Ohio (segundo a fonte que me mandou o texto)...


1. A vida não é justa, mas ainda é boa.

2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno .

3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.

4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.

5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.

6. Você não tem que ganhar todas as vezes Concorde em discordar.

7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.

8. É bom ficar bravo com Deus, pois Ele pode suportar isso.

9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.

10 Quanto a chocolate, é inútil resistir.

11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.

12. É bom deixar suas crianças verem que você chora.

13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.

14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.

15. Tudo pode mudar num piscar de olhos Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.

16. Respire fundo. Isso acalma a mente.

17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.

18. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.

19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.

20 Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.

21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.

2. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.

23. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.

24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.

25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você.

26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras 'Em cinco anos, isto importará?'

27. Sempre escolha a vida.

28. Perdoe tudo de todo mundo.

29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.

30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo..

31 Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.

32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.

33. Acredite em milagres.

34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.

35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.

36. Envelhecer ganha da alternativa morrer jovem.

37. Suas crianças têm apenas uma infância.

38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.

39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.

40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.

41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.

42. O melhor ainda está por vir.

43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.

44. Produza!

45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.

terça-feira, 22 de junho de 2010

87

Era uma máquina de sumimento. Ela era. Foi desligando a própria vida aos poucos. Primeiro foram os compromissos, datas, nomes. Perdeu as contas de quantas vezes desejou esquecer pessoas, gestos, amores mal resolvidos, comidas mal digeridas, gostos, sabores, palavras e xingamentos. Agora, tudo se desfazia.

Não sabia mais a cor das cores. Nome completo, cep, cpf, nem endereço. Rostos dos quais tinha uma vaga ideia foram aqueles que povoaram sua memória por décadas. Agora, se desintegravam. Era o nariz de um, nos olhos do outro. O cabelo da mais velha, na cabeça da mais nova. Mãos, tato, digitais, nada tinha os mesmos nomes.

Esqueceu de onde veio, mas queria voltar para a fazenda. Não sabia aonde ir, mas não queria ficar. De tudo, só restou o amor pelos gatos e seus guizos. O tlintlin deles a trazia de volta, quando os pensamentos se perdiam. Ela era um labirinto sem retorno. Confusão. Se era dia, se era noite, tanto fazia. Barulhos não mais reconhecia. Nem vozes. Até que se calou. Não havia mais o que dizer.

Não reconhecia mais seu timbre. Sol, si, dó, das notas nenhum registro. Aquele som não fazia sentido. O samba, que lhe fora tão caro, soava tambores distantes e surdos e recorrecos e tamborins sem harmonia. O pandeiro que ele tocava estava mudo há anos. O espelho onde ela se via não se reconhecia. A sala, a mobília, os abajures que ele inventava quando moço eram um museu sem novidades.

Ria de si mesma quando perdia, pela décima vez no dia, a chave da gaveta. Pra que, meu Deus, uma gaveta? Não havia mais o que guardar. Ela esvaziava. E se nutria do óbvio, do essencial. Galinha, ovo, quem veio primeiro, tanto fazia. Nada mais tinha gosto, porque do paladar não se lembrava mais.

E nós? Por onde ficamos nós no seu redemoinho de passados distantes? Nunca lá estivemos. E nós, nomes gravados no cordão que agora leva no pescoço pro caso de se perder, nada mais somos. A ausência, o vazio. E assim a vida se esvai sem ir. Ela não se foi, mas não está mais ali. Nem aqui. Nem acolá. Não cabe mais no mundo, porque desconfia dos mundos que há no mundo. Ingrato, sujo, desvarido, azul, belo, deste, do outro, dos santos, dos bêbados, dos insanos, dos pecadores.

Quantas vezes quis bater em retirada, ameaçava, mas a porta nunca passou. Agora, o retorno é para sempre, presa nela mesma, sem saber quem é nem o que faz ali. Onde foi mesmo que deixei meus óculos? cansava de perguntar, com os óculos presos no pescoço, as lentes para o chão, suspensas no cordãozinho jaz imundo.

Onde estamos todos, seguros no resto de afeto que ela lembra de ter tido, de ter dado, vendido, negociado, fazemos qualqur negócio em troca de um pouco de atenção. Não ensinou a dignidade, que tinha de sobra, mas se recusou a passar adiante. Perferiu fincar a insegurança, sob a qual ela se erguia ainda mais poderosa. Ela era a mulher da casa. Ninguem mais o seria.

Da vaidade, veja só, não se esquece. Se banha e se perfuma, se penteia e se veste, pronta para a festa diária da vida. Rainha de suas vontades, não sabe mais o que quer, nunca soube, mas se sabe fêmea, fêmea antiga, gasta, usada, rodada, quilometrada, mas de cabelo tingido, unha vermelha e batom carmim.

Pouco resta da boca, nada tem a dizer, não lembra da última frase, não pode engatilhar a próxima. Mas sabe, sabe-se lá como, que haverá amanhã. Só não tem certeza do ontem. Olha pra trás e está na boca do abismo. Nada ficou. Os pés sentem a terra deslizar, vai-se toda ser engolida por aquele breu, a escuridão do não saber e do esquecimento. Mas vai sem sofrer. Não vai se lembrar de nada mesmo.

Antes fosse asssim com os porres, com as mancadas, com as broncas que tomamos e que damos, com os vexames, os vômitos, as choradeiras. E com as surras, as ausências, as infelicidades, as indelicadezas. Com as palavras de fel, com as malas que perdemos, com os ódios, com as vinganças. Com as maldades que desejamos, com as crueldades que cometemos. Mas não. Quando a vida se esvai e se apaga somem também o gosto da framboesa, do morango e do mirtilo.

Desaparecem Bach, Tchaikovsky e Tom Jobim. Não há mais Elizete, Lupicínio nem Martinho da Vila, que ele gostava mais do que ela, mas ela dançava junto, rodopiando nos salões, parando as festas, arrancando aplausos.

Vão-se os beijos ternos, os beliscões safados, os olhares de tesão, as passadas de mão e toda sorte de bolinações que fazem nascer o sexo, as crianças e os amores.

É o adeus. É morrer e esquecer de deitar. E esquecer, esquecer, esquecer, até sumir em si.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Carro de som

São Paulo é uma cidade saborosa e gosto de tudo nela, até do trânsito. Verdade. Eu adoro um bom e demorado congestionamento. Parece incrível, mas é ali, encalacrada dentro do carro, que vivo excelentes momentos de solidão. Ficar sozinho é um raro privilégio para quem tem família, criança, trabalho. Aposto que há outras mães, mulheres, atletas, profissionais, donas de casa, como eu, que também gostam de ficar a sós com seus ‘eus’ enquanto esperam a 23 de Maio andar, a Brasil se mover, a Rebouças alargar ou a Radial dar um passinho para a frente. A verdade é que nunca estou apenas eu comigo. Sempre tem alguém em volta. Mas no carro não. Não há um só vulto, uma miragem. A paisagem é deliciosamente sem nada. Fico só com meus pensamentos, minhas vontades, e daí choro quando quero, sorrio raramente e canto. Não sei vocês, mas adoro cantar no carro. E a escolha da trilha sonora se divide com o dial. Alguém um dia me garantiu que quem trabalha com informação precisa sempre ter uma rádio popular sintonizada, que é pra saber o que as pessoas estão ouvindo na ‘vida real’. Fiz isso por um tempo, e conseguia até distinguir quem é o Zezé, quem é o Luciano, o Chitaozinho e o Xororó. Agora não sei mais. Hoje reservo as memórias para as rádios de notícias, as que só tocam música brasileira e a 'nossa' Eldorado (não sei viver sem Alessandra Lopes e o Trilhas e Tons, nem sem o Vozes do Brasil da Patrícia Palumbo e muito menos sem a sala dos professores do Daniel Daiben). O trânsito também me dá mais tempo de ficar com os meus filhos. É que se não estou sozinha, eles estão comigo. Sou, como muitas paulistanas, mãetorista matinal. Leva uma para o balé, o outro para a natação, para o inglês, para a terapia (sim, hoje eles começam cedo a cuidar dos estragos que fazemos neles - e nem adianta chiar, pois a culpa, Freud explica, é sempre da mãe). E é nesse vaivém, nessa convivência cronometrada, que aparece a chance de colaborar com a formação musical das crianças. Às vezes ouvimos CDs, escolhidos (entre tapas e beijos) por um ou por outro. Na maior parte das vezes, o rádio é que fica ligado, apresentando a eles um ecletismo necessário para um ouvido em formação. Foi assim comigo, que de Martinho da Vila a Mozart, ouvia de tudo, e ouço até hoje. Até porcaria eu ouço, pouco importa. Porcarias fazem parte da vida e, se for ruim demais, puft, mudo de estação, desligo o som. Acabou. Delicioso poder exterminar tão facilmente o que ruim. É um exercício curioso ver se formar o gosto musical de um ser humano. E é preciso se resignar diante do inesperado. Por mais que você tente, compre a coleção completa do Palavra Cantada (Paulo Tatit e Sandra Peres são uns gênios), resgate os Saltimbancos de Chico Buarque e os discos infantis do grupo Rumo, ataque de Hélio Ziskind, nada vai adiantar. Um dia, sua garotinha vai recitar todos os 'versos' da Glamurosa, do MC Marcinho. Seu moleque vai gritar no banco de trás um Skank básico, "vou deixar... a vida me levar... para onde ela quiser". Eles vão cantar Ana Julia dos Los Hermanos, por mais que você tente impedir. E vão, aff, pedir para você colocar de novo aquela do 'bundalelê", que obviamente você não tem, mas algum amiguinho gravou num CD e deu de lembrancinha no aniversário. Mas nem todo seu esforço será em vão. À noite, quando sua menina te chamar para ouvir Bach com ela antes de dormir, você verá que a grana investida naquela coleção de clássicos valeu. Foi presente do avô, e você passará a admirar ainda mais o seu pai, que teve essa idéia brilhante. Tudo bem que no dia seguinte ela acorde imitando o gritinho estridente de Hannah Montana, ou se desfaça em agudos para cantar com a galera do High School Musical. Você também já deve ter tido seus dias de Grease... e sobreviveu.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Vico e Elvis

Estavamos ouvindo um CD de rock das antigas, e ele perguntou se tinha Elvis. Eu falei que só havia uma música, então fui até a Saraiva e comprei uma dessas coletâneas. Coloquei no carro, na volta da escola. Ele ouviu uma, duas, três músicas. E concluiu:

"Mãe, o ritmo das músicas do Elvis parece sertanejo em inglês, né?"

terça-feira, 14 de julho de 2009

O calçadão (*)

Aquela tosse não era de hoje, nem sei mais quando começou. Nada em mim é recente. Os pigarros. A dor no peito, que não era angústia, mas parecia. Aguda, dilacerante. Vinha cortando as costelas, batia no esôfago para explodir em sons aterradores. Minha neta saía correndo cada vez que eu tinha um ataque daqueles, fugia de mim. Muitos foram os que fugiram de mim. Tive tudo. Empresa, família, dinheiro e ódio. Pude ser sarcástico, pude ser cruel. Humilhar sem remorsos. Rir o riso dos que mandam diante dos que obedecem. Não que eu seja má pessoa. O poder é que dá na boca esse gosto de fel. O diagnóstico de câncer no pulmão era uma revanche da vida contra mim. De todos os que eu botei para correr. E eu agora era obrigado a ver a beleza do mundo com olhos de quem se despede sem ter tido chance de se apresentar. Deve ser um conforto viver assim. Nu. Sem medo. Sem blindagem. Sem amarras. Como aquele cara, lembro bem dele. Exibido em frente ao mar, se erguia nos ferros, suando em bicas e se achando o máximo. Devia ter uns quatro palmos de costas, o sujeito. Bíceps de titã, um abdome espartano e que dentes. A boca inteira pulsava um sorriso típico dos ignorantes, exalava bafo de canela e uma burrice que eu podia ver, pegar no vento. Tive vontade de lhe chutar o rabo. Imundo ele. Mas não. Nada no ordenamento jurídico, na constituição, em porra de lei nenhuma o proíbe de fazer isso. Eu? Por nenhum dinheiro vivo do mundo conseguiria me expor assim, barriga pra fora, pêlos à mostra, pra quem quiser ver. Nem lá, na praia. Nunca fiz isso. O status exige compostura. Sempre tive um nome na praça, uma reputação a zelar. Pergunte aos que conseguem. Aposto a resposta. Sei o que sentem. É paz. Passo reto. É hora da minha água de coco. O médico mandou. Eu preciso fazer bem à minha saúde.


(*) O primeiro texto que fiz na oficina, em 2008. Sorteei algumas palavras e escrevi seguindo a ordem na qual elas caíram sobre o papel. As palavras nos escolhem, é o que dizem. Não duvido.

domingo, 5 de julho de 2009

O conto do amor

O tal tema da oficina "Um lugar desconhecido" revisto e ampliado...


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De rapel, ele desce, lentamente, preso aos fios de afeto que ainda pendem dentro do peito. Põe os pés na segunda costela, de cima pra baixo, e se apoia, instável, grudando e desgrudando braços e costas da carne vermelha viva que o circunda. Ir até onde nenhum outro jamais foi. Cair no coração selvagem e descobrir bem de pertinho o que sobrou de si depois de tanta vida mal escrita, por linhas tortas que nunca deram certo. Sempre soube que aquele vão oco da aorta existia, mas jamais pudera ali pisar. Agora estava ali, um expectador do estrago que suas escolhas erradas causaram. Por que fora naquela noite àquele encontro sombrio, com uma mulher desencarnada e vestida de lascívia. A paixão, a paixão, a paixão.
Pouco sabia do vale dos que morrem de amor platônico, e agora podia ver a cadeira de veludo verde, com seu nome cravado em dourado, um lugar de honra no limbo dos infelizes. Um dia quis comprar alegria, mas não sabia sorrir, e desistiu.A imagem dos azulejos azuis ainda luzia em sua memória. Ela o convidara para entrar, sentar, tomar um cafezinho, como se ele já não soubesse que dali não sairia vivo. Morreu cinco minutos depois de perguntar porque ela o escolhera, entre tantos. Ele era interessante, foi o que lembrava ter ouvido, antes de se aproximar de seu pescoço, o dela, regado a Poison, e se embriagar de tudo o que ela tinha para oferecer. Entrou, sentou, se refastelou nela inteira, ela foi dele para sempre enquanto duraram aquelas duas horas. Estava entorpecido daquela mulher e agora sabia o gosto que tinha um corpo em êxtase. Piscava os olhos fitando o teto, incrédulo, trêmulo. Sabia que ela gargalhava, mais por ver os lábios escancarados, do que por ouvir o som. Seus sentidos não funcionavam. Sentia o peso do edredon verde cheirando a guardado, um cobertor que passou a vida esperando por aquele odor de sexo e medo, e agora se enroscava nele, nela, satisfeito. As imagens turvas daqueles primeiros instantes viravam vultos, agora que sentia os pés escorregando na gosma de gordura e músculos. Olhava para dentro de si e tinha náuseas. Se vomitasse ali, seria engolido pelo ácido de suas pequenas e gigantescas maldades. As crueldades todas que cometera, com todas as mulheres antes dela, pelas quais merecia ser escalpelado, sabia disso, agora se revelavam nas vísceras. O que faria se fosse engolido pelo ódio que sempre nutriu? Conseguiu enxergar um ventrículo abrindo, fechando, abrindo, fechando, ritimado, perdido entre helenas, marias, lourdes, argh, lourdes, laura, mulheres com ele, com L, a letra, não com ele, ele, o cara, embebido em plasma, hemácias, leucócitos, plaquetas. Se afogava em água, oxigênio, glicose, proteínas, hormônios, vitaminas, gás carbônico, sais minerais, aminoácidos, lipídios e uréia. Ele coagulava. Ficaria preso ao átrio direito. Ou seria o esquerdo. O miocárdio não pulsava. Era uma hemorragia. Na metade direita do coração, onde só circula sangue venoso, ele colocou o pé esquerdo. Na esquerda, bloqueou o sangue arterial com o direito. Ficou assim, dependurado, um abismo no septo. O endocárdio necrosado. O pericárdio transparente, sedoso, ia rasgando vagarosamente. A membrana que reveste todo o coração se esgarçava aos poucos, como ele foi rompendo a vida. Não conseguia conter a fenda, se agarraria ali, mas não duraria uma piscadela da primeira vagabunda que aparecesse. Ele não resistiria a outro desprezo. Precisava urgentemente voltar à vida cafajeste que tinha levado até ali. Não encontrava nos vãos de seu ser vestígio algum do que fora um dia, e desaprendeu a viver. Queria poder voltar e contar onde estivera, que dentro do coração é só sangue e gelo, mas não teria ninguém para ouvir. Menos ainda conseguiria subir ao cume da cabeça e encontrar os buracos da vida, ser cuspido pela boca, assoado em alguma gripe, balançado depois de entupir algum ouvido, ou escapar ileso em alguma lágrima de amor derrubada. Não. Ele agora ficaria preso em si. Amuado e sem sonhos, subindo e descendo a cada soluço que insistia em dar. Chorar não sabia, mas a tristeza vinha em trancos. Suores.De onde o desejo nasce, vêm também os medos mais medonhos. Os poemas poemados. A língua. Quem sabe conseguisse ainda lamber algum beiço carnudo, como que sempre gostara, como os dela. Ela. Ela. Ela. Ela seria eterna nele. Conseguia enxergar seus rastros, um pedaço do salto alto da sandália vermelha, coisa de puta, só pode ser, fincado na ponta do estômago. Ela moraria para sempre nos seus infernos. Os restos do vestido preto de fazenda boa, coisa de grife, coisa de puta rica, só pode ser, esparramados em cima dos rins. Não. Puta ela não era que ele não era de comer puta. De onde ela saiu foi onde ele chegou. Agora podia ver, como ninguém mais, o que causara nele.Um homem devastado. Seus pulmões despedaçados. Hollywood. Trinta por dia. Ela sempre gostou de fumar, e ficava bem com cigarro entre os dedos, colocando delicadamente na ponta da boca, fazendo cara de vontade. Sempre entendeu tão bem os recados que ela mandava sem falar. Inventou uma mulher do jeito que queria que ela fosse, e assim ela era. Dentro dele ela era assim. Dobrava o indicador e ele ia. Sem avaliar riscos, sem pensar em ninguém. Nunca antes soubera que a saudade era física. Cada vez que via o rosto dela no fundo da retina, sentia um pedaço da mitral caindo. Desabava. Quanto tempo ainda teria para voltar a respirar. Seria tragado para o ralo da alma e nunca mais a veria. Nunca mais. Nunca mais é mais que a morte, sempre soube. Agora, diante daquele nunca mais um beijo, nunca mais o cheiro dela, o cangote, a coxa lisa, a panturrilha arrebitada, nunca mais ele voltaria a si. Estava entregue. A vida iria passar e ele morreria dentro dela, da vida dele, para nunca mais sair . A náusea, um antiácido resolveria, um tarja preta, nunca nada foi eficaz. A felicidade mora aqui, mas ele nao enxergava a cara dela. Via nervos e músculos em nós. Trigger points emocionais. Ele era um emaranhado de vontades não realizadas. Luz não há. Dentro da gente é um centro da terra escuro e úmido. Vulcão seria se tivesse forças, mas não era mais do que um pedaço disforme de memórias e lembranças. Também não conseguiria jogar fora o que ali ficou gravado. Os grudes dela caíram na circulação, afetando todo o funcionamento do organismo. Debilitado, ainda pensou em pular nas sobras de gordura abdominal e num salto único, sair de si. Cairia estatelado no meio da sala dela, onde entrou sem ter as chaves. “Oi amor, o que você está fazendo aqui todo ensanguentado”, ela perguntaria, sem jamais entender onde estivera. Ela nunca o chamou de amor. Ela nunca mais o chamará de amor. Ela já era nunca mais. Ele, o amor.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Toddynho

"Eu vou soltar o choro em casa."

Vico, para o pediatra que recomendou que ele não tomasse mais leite com chocolate.

sábado, 2 de maio de 2009

A lógica infantil

Vico estava, naquele tempo, estudando o Egito. Devia ter uns cinco anos de idade.
O pai, ao volante, perguntou:
"Vi, quem nasce no Egito é o que?"
A resposta veio na forma de outra pergunta:
"Um bebê?"

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Morelembaum

Ele enfia a mão embaixo do vestido, sobe sorrateiro a coxa e, na curva da virilha, pega a pontinha do elástico, levanta um pouco e solta. Plec. "Você sabia que cada calcinha tem um som?" Não. Não sabia. Mas ela gostou de pensar no assunto. Se fosse uma garota magra, como modelos, só pele e osso, a calcinha se estatelaria na bacia. Tak. Tek. Seria um estilhaço. Se fosse uma dona gorda, a calcinha faria plumft, ploft, como um colchão de água, com as banhas acompanhando o movimento como ondas. Mas se ela é assim, nem gorda nem magra, nem feia nem bonita, uma calcinha básica, bege, quase sem sexo, faz Plec. Só Plec. Uma mulher de uma nota só.

(Esse eu recuperei do SouMelhorporEscrito...)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Por que com razão ou sem a chuva chora sua alegria?

Outro tema lá do Bolo Inglês. As reflexões é que são do Vico, que garantiu que do lado de lá do mundo não chove... Faz sentido... O texto é da época das Olimpíadas em Pequim, 2008.



Na China não chove. É do outro lado do mundo, as nuvens ficam depois do chão e as gotas caem para lá do depois, sem molhar as casas, os prédios e as pessoas. Virado do avesso, o cérebro da criança enxerga o que ninguém vê, admira o que poucos entendem e nenhum pingo de temporal chora o suficiente para demonstrar a alegria de conviver com um ser humano em formação. Ele não sabe que até chove em Pequim, mas pouca gente percebe. As densas nuvens sob a qual estão envoltos é de permanente poluição. A despeito da atitude antiesportiva dos americanos,que não precisavam ter feito aquela afronta e desembarcar nos jogos olímpicos usando máscaras de oxigênio, o ar de Pequim é impossível de ser respirado. Para ele, isso é irrelevante. Se alimenta de outras brisas, pouco liga para esportes, detesta futebol, faz natação porque a mãe manda, agora parece que está tomando gosto pela coisa. Por ele, cavaria um buraco no chão da sala que pudesse chegar até a China, uma genuína filial da fábrica do Papai Noel. É lá que fazem todos os brinquedos, acredita. Made in China. O carrinho, o Power Ranger, o Bem 10, o binóculo, até o guarda-chuva e o estojo. Quero ir para lá. Eles vieram para cá. Cem anos de imigração chinesa, pai! Não, é japonesa. Ué, não é tudo igual? Só os olhos são puxados. Bem, as roupas são de seda. E as diversões são eletrônicas. No Japão, pense bem, também não chove. Em qualquer lugar que fica para lá do depois, no além dos além, como diria Estamira, o céu não chora. Ele coça a cabeça, firma o polegar no queixo, pensador, e dispara. Em terra de gente que sorri com os olhos, a chuva só chora de alegria. Tristes de nós, poluídos de carência, chuva ácida sob os pés, que, sem dó, castiga.

O pé sem corpo

Algumas idéias de histórias sugeridas pelo Vico acabaram virando temas para nosso textos lá no Bolo Inglês, o grupo da oficina literária. O pé sem corpo foi um deles. Deu nisso aí...


Ela é duas e vive dividida. Uma atua. Outra é ela. Há dias em que não consegue entrar em cena. E quebra. A outra invade a uma e instaura o caos. Não hoje.
Como um ovo espatifado, uma gosma de clara e gema, disforme, sem a proteção da casca, nem o calor do ninho, ela acorda, sem a outra. O peito arrebenta oco, sem emoção. Olha em frente e reconhece aquele sorriso que já foi dela, as curvas bem torneadas, as pernas fortes, os seios fartos. A outra saiu de si. Encarnou e está ali, pronta para conquistar a vida que ela nunca teve coragem de viver. Vai se jogar de cabeça, sem amarras, nos corações sem dono. Irá beijar todas as bocas que tiver vontade, ler todos os livros sem ninguém para interromper, conhecer todas as cidades, vai desafiar os verbos no infinitivo, correr, nadar, navegar, naufragar, delirar, apanhar, bater. Usará o resto do tempo que tem sem deixar nenhum segundo fazendo nada. Só quando fazer nada fizer bem. Vai vestir camisas deles, comer pipoca na sala, com champanhe de primeira e homens de segunda, andar de salto alto e minissaia, bem vagabunda, pintar bocas de vermelho, unhas de vermelho, dentes de vermelho, morder línguas. Pedirá demissão, mandará patrão pastar, encontrará o que fazer, um jeito de se bancar, dormirá até mais tarde, sem responsabilidade, e terá até quem lhe traga café na cama, a danada. Animada, ela bota os olhos de pestanas longas para baixo e, surpresa. O corpo todo se fez, menos os pés. Os pés de moça, bem cuidados, estão ao lado, não grudaram nela.
Inteira em sua ferocidade, aquela outra que era ela não pode se mexer. Flutua, estupefata. É um fantasma atrás da cortina, presa pela grade da varanda, sem ter para onde ir. Os pés burilam no chão, como mães bronqueadas, e se negam a ela. Se recusam a ser dela. São pés sem corpo, não darão a ela esse gostinho, de sair pelo mundo e ser feliz. Aquelazinha não vai dançar, rodopiar, gargalhar, se embriagar, se empanturrar, se apaixonar, dar para um qualquer, qualquer um, amar e ser amada, ou nada. Ficará ali, cheia de vida e sem caminho.
Ela suspira aliviada, como se tivesse se livrado do pior de si. Levanta da cama e encara a outra, que nem chorar consegue, tão assustada e aflita que está, tão cheia de volúpia e ódio, ódio daqueles pés teimosos que não se encaixam nela. Ela sorri leve, deixou de ser de mentira, fajuta, falsa, para inglês ver. Poderia continuar no palco sendo tudo o que esperam dela, sem sofrer. Ela seria verdade. A outra, que era ela, morreu nela, saiu dela, e, quanta ironia, ficou presa num corpo se pés. Não vai poder nada do que queria, bem feito, filha da puta. Ela, que sempre soube quão perigoso é amar de verdade e queria tanto viver assim, sem paixões, só não conseguia por causa dela, daquela louca. Ela a deixava trancada no porão, mas não adiantava, não resolvia. Uma hora, a outra arrebentava o cadeado, e dava no que tantas vezes deu. Agora acabou. Tinha corpo, não tinha pés. Ela estava inteira.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

QUARENTA ANOS

Escrevi quando fiz quarenta... Achei nos meus arquivos e trouxe pra cá, dois anos depois.



Cresci lendo Paulo Francis e vendo seus comentários à noite na TV, com seus hiatos e ditongos estendidos, parara encerrar as frases em queda brusca, numa entonação que só ele tinha. Também me lembro de Ibrahim Sued, num cenário de Globo Repórter com Nacional Geografic, ademã que eu vou em frente. Também vi Clodovil e seus desenhos alongados, na TV Mulher com trilha de Rita Lee, mulher é bicho esquisito, todo mês sangra, ancorada por Marília Gabi Gabriela e Ney Gonçalves Dias. Tá, tá, tá... também vi Paula Saldanha e seus cabelos escorridos na TV Globinho e, yes, cantei Mio e Mao, Barbapapa e marmelada de marmelo, no tempo em que a Cuca Dorinha Duval se retirou de cena por matar o marido. Mas quem ama não mata, separa. E vi Malu Mulher começar de novo e contar consigo, e com a Narjara Tureta, que acabou vendedora de suco no Rio. Mas ninguém fez mais a cabeça da minha geração do que a dupla Cristina Franco e Beth Lima no Ponto de Vista, chamado com ginga por Leda Nagle, todo sábado na hora do almoço. Aquilo era moderno. Taão moderno como Francis nos estúdios de Nova York, Central Park ao fundo. O mesmo Francis que escreveu, em 1991, para o suplemento Cola do Estadão, uma lista com os livros que ele considerava mínimos para alguém ter cultura. Chequei a lista e tiquei uns dois ou três. Não li os clássicos, só aqueles por obrigação. Gostava mesmo era de ver televisão. O cinto de inutilidades, todo dia é dia, toda hora e hora... Amigo e companheiro. De ver os desenhos e de chorar com os gingles. Quero ver você não chorar, não olhar para trás, nem se arrepender do que faz. Quero ver o amor nascer e se a dor crescer você resistir e sorrir. Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar, dizia o rei Roberto Carlos em toda véspera de Natal. Aquele especial de 24 de dezembro era tão sagrado quanto a São Silvestre à meia-noite do réveillon, com a Paulista toda iluminada. Francis não correu maratonas. Mas deu um baile na linguagem, no jeito de ver e de falar das coisas. Cresci lendo Francis. Fora ele, eu era mais o boa noite do Cidão Moreira e os documentos que atestava Censura Livre e tradução Herbert Richards, São Paulo. O que será que Francis acrescentaria em sua lista original de lá pra cá? Paulo Coelho? Eguinha Pocotó? A bananada de banana continua no ar, mas não se fazem mais Cucas viscerais e doidas como antigamente. Quem ama não mata, e hoje vemos Doca Street, falando em dor para o Geneton Moraes Neto, que acha que faz as perguntas mais inteligentes do mundo. Vá ler Francis, meu amigo. Vá ler Mencken. Veja Mainardi. Quem quer polêmica bate duro e não assopra. Da lista de Francis tirei Thomas Mann e convalesci lendo A Montanha Mágica. Très jolie. Empaquei nas páginas em francês, mas agora prometo retomar. Je sui desolé, mas estou aprendendo, enfim, a falar francês. Não serve para nada, mas me prometi que leria Mann até o final, e não morro sem fazer isso. Vou dispensar o Herbert Richards desta vez. Não quero versão brasileira. Não vejo mais televisão, só o estritamente necessário. Necessário é seguir o conselho do Francis. Mas, meu caro, será mesmo que eu preciso mesmo ler a Teoria da Física Quântica? Dá pra pular esse pedaço? Pena que vida não vem com tecla foward. Se naquele tempo pudesse dar um FF, teria desligado a TV e ido estudar mais, e mais cedo. Mas nunca é tarde, certo (né João)? Sorry, periferia. Ademã que eu vou em frente. “Eu te amo meu Brasil, eu te amo; ninguém segura a juventude do Brasil.” Aff! Será que não tinha trilha sonora melhor para embalar o ufanismo da ditadura? Poderiam ter usado ‘o barquinho vai, a tardinha cai’. É mais nosso jeito, a nossa cara. Uma coisa carioca, um gringo em Nova York, um apê de aluguel na Vieira Souto, e Chico em Budapeste, pro dia nascer feliz. Beijo pro maluco do Cazuza e para a doida da Eller. Viva o povo brasileiro, eu adoro os viscerais. Bye, bye queridos, que o tempo não pára. Se ninguém acha que eu sou careta, eu sou manchete popular. Estou cansada dessa falta do que falar. Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue. Tragar a dor engolir a labuta, de que me vale ser filho da santa, melhor seria ser filho da outra. Ops, classificação 14 anos. Sai da Sala que a Dona Redonda vai explodir, o Juca de Oliveira tem asas, Sonia Braga é o estopim da bomba e nós continuamos vivendo, todos, na mesma Saramandaia. Chame o síndico! Chame o Odorico Paraguassu! Inaugure o cemitério que quero morrer virgem. Me embriagar antes que alguém me esqueça. Um beijo na Cecília, na Marília, nas crianças. O Francis aproveita pra também mandar lembranças. A todo pessoal, adeus.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Tema: A alface, a bicicleta e o violino

Ela desceu apressada do carro, olhando em volta com medo de soslaios à espreita. Ninguém. Não viu viva alma. Pagou o táxi nem sabe com quantos dinheiros, fique com o troco, o moço entendeu nada. A maleta do instrumento debaixo do braço, esgarçando ainda mais o decote do vestido. Verde. Ela gostava de verde. Verde alface. Ele nem tanto, mas raro reparava na roupa que ela usava. Não iria prestar atenção hoje. Tanto zelo para acabar numa mesa de boteco pé sujo no baixo Gávea. Minerva esteve ótima no concerto desta noite, mas queria se livrar daquela pele de cordeiro e desabar dentro do abraço dele, para sempre. Nada impediria Zeca de beber mais um chope, nem o olhar de ressaca dela. Dor de cabeça era o que ele teria se continuasse ali, debruçado no logotipo da Brahma, avacalhado como sempre. Uma mulher tão erudita não podia estar apaixonada por um fulaninho tão fubeca. Mas estava. Zeca enganava bem. Morava bem, herdara uma boa grana dos patrões, para quem dirigiu desde os 16 anos. Os filhos, ingratos como são todos os criados com excessos, sem limites, ficaram fulos da vida ao lerem o testamento de Dona Hermínia e do Doutor Elias. Como assim, o motorista entre os beneficiários? Tentaram anular o documento, sapatearam, espernearam, mas à luz da lei, Zeca, o chofer, como o casal sempre o chamou, tinha ficado com o apartamento da Rua dos Otis, com o carro, e mais uns bons tostões no banco. Foi merecido, acreditava Minerva. Tantos anos se dedicando àquela família, eles tinham agido bem. Zeca ainda tinha medo de morrer numa emboscada armada pelos filhos do Doutor Elias, mas, em noites como aquela, dava de ombros até para a morte, e só pensava em refrescar a goela, um, dois, cinco, dez chopes esôfago abaixo. Depois que ganhou aquele dinheirão, ele nunca mais botou os pés num acelerador a serviço. Só a passeio. Para o dia-a-dia, preferia bicicleta. Minerva apreciava isso nele. Também ela gostava de andar por aí pedalando, e sonhava com o dia em que ele a convidaria para um passeio na Lagoa. Nunca que ele a chamou. Até aquela hora. Bêbado feito um jumento, Zeca cambaleou, sussurrou algo no ouvido de Gilson, o garçom, deve ter pendurado a despesa, apesar daquele dinheirinho de pinga não fazer a menor falta, botou a mão pesada no cangote de Minerva e quase a ergueu. Vamos mulher, vamos andar de bicicleta. Minerva tremeu. O violino? Onde ela levaria o violino? Gilson, vem cá, guarda para mim, por favor, amanhã eu pego, qualquer hora passo aí. Minerva abandonou no bar o Stradivarius, era um parecido com aquele que foi vendido em Nova York por US$ 5 milhões, preço jamais alcançado por um instrumento musical em leilão. O dela talvez não fosse tão valioso, vai saber. Talvez nem fosse Stradivarius. Nada valia mais do que aquele passeio de bike pelo Jardim Botânico com o Zeca, o seu Zeca. Ele, ela, a bike, a brisa, a noite, o Cristo. Ah... alegria que não cabe em dinheiro nenhum do mundo. Lá foi Minerva, vestido verde de seda, sem violino, sem sandália, sorria. Zeca subiu apressado a rua, chegou na garagem do prédio, tirou sua bicicleta da parede onde estava pendurada, e vagou uns minutos por ali para encontrar outra que servisse para Minerva. A da vizinha do 52 estava em bom estado, arrancou a bichinha do gancho, e a entregou para uma Minerva cada vez mais atônita e incrédula. Então era verdade. Eles iriam passear de bicicleta pela noite quente do Rio, quem sabe chegariam até o Leblon, e cruzariam a Delfim Moreira, e iriam dar na praia. Enquanto vagava, Zeca montou no camelo e saiu em disparada. Minerva correu para alcançá-lo. Ele descia a rua com fé, brisa na cara, sem medo, peito aberto. Ela veio logo atrás, atrapalhada que estava com a barra da roupa de gala. Contornaram a praça, um, dois, três quarteirões adiante, Zeca parou. Não queria nada. Só esperar por ela, que continuava mais lenta do que ele. Agora andavam lado a lado, um olho no asfalto outro na pele, ele ainda cheirava álcool, ela reluzia música clássica. Quando viu a praia, Minerva calou. Viver um sonho apavora. Ela tinha certeza de que quando algo vai bem demais, vem desgraça. Zeca ria desse jeito de ela pensar, e dizia, calma Maria, vambora. Minerva nem ligava de ser chamada assim, ele fazia só para dar graça à conversa, como a gente chama de Zé qualquer Mane, ele chamava Maria, qualquer virgem santa. Desmontou da bicicleta, descalçou as Havaianas, e afundou a areia com sua pegada 42, quase 43. Medo. Minerva temia ser feliz. Avistou um aceno com as mãos e foi. Deus estava de bom humor e não propôs nenhuma desgraça. Nenhuma bala perdida passou. Nenhum pivete ou canivete. Traficantes, putas, ladrões, malandros de toda espécie tiraram folga naquela madrugada. O mar do Leblon amanheceu sereno.

Tema: Um presente para você

Ele dá a primeira mordida e a boca amortece, as bochechas ardem. Os olhos sorriem e, aos poucos, ele se desintegra. Ela sabe o motivo e gargalha sem mostrar os dentes, só por dentro, numa alegria que faz cócegas na garganta. Passara a tarde no supermercado. Casa de moço solteiro, ele não tinha nenhum apetrecho dos que seriam necessários para fazer o bolo. Saiu logo depois do almoço, e dividiu os corredores com senhoras arrumadas, que davam ordens às criadas, com empregadas sozinhas e eficientes, dessas que fazem a lista de compras e resolvem a parada sem a patroa por perto, e com garotas jovens, desempregadas e bem casadas, noivinhas felizes que começavam a se dedicar à vida a dois com empenho de executivas do mercado financeiro. Misturou-se àquelas mulheres como se fosse uma delas. Até poderia ser, mas se sabia diferente, e se divertia sozinha imaginando o que aquelas donas diriam se soubessem que seus ingredientes não eram os comuns, só pareciam iguais a todos os outros. Comprou uma tigela de louça branca, um pão duro, colher de pau, uma espumadeira para bater claras em neve, assadeira, farinha de trigo, açúcar de confeiteiro, chocolate granulado para a cobertura e chantilly. Passou sem pressa no caixa, pagou com cartão de crédito, jogou a conta no futuro. Voltou ao apartamento dele, de onde acabara de conquistar as chaves, depois de ganhar o coração do dono, e sabia que teria uma trabalheira danada pela frente até ele voltar da agência. Ovos, farinha, chocolate a postos. Misture tudo, bata bem, junte o açúcar, o fermento, conferia a receita de tempos em tempos, manteiga para untar, maconha para temperar. O brownie. Era a primeira vez que tentaria fazer em casa o space cake que experimentara em Amesterdã. Ele merecia. O cara tinha sido um bom amigo até ali, e virara namorado há pouco tempo. Todos os outros sempre a acompanharam nas bebedeiras, mas no gosto pelo fumo ele era o primeiro com quem podia dividir os baseados. Isso fazia toda a diferença. Estava decidido. Ele seria o pai dos filhos dela. Agora sim encontrara um homem com quem dividir a vida, o pisco sauer e a erva. Da sala rodeada de janelas avistava o Pacífico, e sabia que ali era só uma parada na vida que escolhera para si. A profissão a levaria cada vez mais longe, e Lima ficaria no passado. Ele a acompanharia, tinha certeza disso. A chave virou duas vezes e o assobio era a senha para a chegada dele. Aniversário de 30 anos pede brinde. Ela o recebeu com a taça escancarada, enlaçou seu pescoço e beijou a ponta do nariz. O cheiro de chocolate tinha tomado conta da casa toda. Caminhou na frente dele, que acompanhava zonzo o lá e cá dos quadris largos. Ancas à brasileira. Sem salto, ela ainda era um palmo maior do que ele, que gostava de se aninhar no externo dela, entre os seios. Foi até a cozinha, mostrou o bolo enfeitado com uma vela de coração. A festa eram eles. Para eles, só deles. A faca desceu macia pela massa, bateu no fundo do prato, voltou pelo mesmo caminho, um polegar mais para frente baixou de novo, e ele tirou o primeiro pedaço para ela. Que esperou. O dele foi ainda mais generoso. Cruzaram os braços como noivos que brindam à vida nova, ele mordeu o bolo dela, ela mordeu o bolo dele. Um presente para você, falou. Ele então sentiu a boca amortecer. As bochechas arderem. Os olhos sorrirem. Feliz aniversário, meu amor, feliz aniversário. Do outro lado do oceano, até hoje se ouvem as gargalhadas deles. Agora, já mudaram o cardápio. Preferem os cookies.